Entrevista com Renato Russo para a revista Atrevida, setembro de 96
Que
shows você assistia quando tinha a idade de quem assiste aos shows
da Legião?
"Na minha época
não havia nada. O primeiro show de rock que vi foi da Rita Lee,
quando ele foi tocar e Brasília, tinha uns 15 anos. Saía com meus
amigos, ia ao cinema, lia bastante, ouvia música. Mas não sobrava
muito tempo para essas coisas, eu estudava bastante."
Você
era CDF?
"Fui bom aluno
até a sétima série."
E
desandou por quê?
"Não sei!!!
[risos]. Acho que fui para um colégio mais difícil, quando minha
família mudou do Rio de Janeiro para Brasília. Tive dificuldade para
me adaptar. Lembro do primeiro dia de aula, todo mundo de uniforme e
eu lá com o meu macacão."
Para
ser diferente?
"Eu era meio
freak [extravagante]. Por isso não tinha muitos amigos no colégio.
Era mais amigo das meninas. Principalmente das meninas estudiosas,
daquelas que sentam na primeira fileira. E dos nerds também. Nunca
fui nerd, mas me relacionava bem com eles."
Qual
era a sua turma?
"Sempre fui mais
estranho do que qualquer outra coisa. Era muito... não sei se
intelectualizado é a palavra certa, mas eu lia muito. Teve um dia na
aula de literatura que o professor pediu para escrever numa folha de
papel todos os livros que já havíamos lido. Eu disse: [com voz
esganiçada] "Impossível. Em uma folha só não cabe".
[risos]"
E
você já sabia o que queria fazer da vida?
"Alguma coisa
ligada à palavra, ser jornalista, escritor. Ou então trabalhar com
algo ligado à expressão artística. E, de preferência, uma coisa que
me desse muito dinheiro... fama e sucesso. Ah, meu sonho era ser um
dos Beatles!"
Por
que tanta modéstia?
"Ah, talvez para
me vingar do mundo."
O
que a gente fez de mal para você?
"Bem, o mundo
nunca me maltratou. Mas eu achava que as pessoas sempre podiam muito
mais do que faziam. Todas muito servis, aceitando tudo. Pensava:
agora chegou minha vez. Esperei minha infância inteira para Ter 18
anos. Acreditava que podia tentar mudar alguma coisa para
melhor."
Seus
pais eram muito exigentes?
"Eram sim. Eles
diziam: "Quer comprar sua guitarra? Vai trabalhar, economize e
compre". Isso me ajudou muito. Cheguei a dar aula na Cultura
Inglesa. Fui um bom professor, tanto que mandavam os piores alunos
para mim."
Como
Sidney Poitier, no filme Ao Mestre, com
Carinho?
"Não fazia
milagres, mas um aluno com média 3 passava para 6. Hoje em dia tem
essa coisa toda de aprender rock em aula de inglês, falar de Mel
Gibson e tudo. Na minha época não tinha nada disso."
Ficava no "the book is on the table?
"E olha lá. Aí
comecei a dar música do B-52, dos Ramones. Distribuía instrumentos
musicais para os alunos. E claro que tinha um prato, que eu dava
para o mais bagunceiro da turma. Acho que se for fazer outra coisa
na vida, vai ser dar aula - mas não para adolescentes, que são muito
complicados."
Você
era complicado?
"Adorava essa
coisa de família quando era criança. Na adolescência comecei a me
incomodar um pouco. Mas quando era moleque, brincava de pique,
soltava pipa, andava de rolimã, ia nadar na praia."
Foi
difícil ser obrigado a sossegar pela epifisiólise, a doença que você
teve nos ossos?
"Muito. Nesse
período resolvi realmente me interessar por música. Ficava deitado
ouvindo os discos, sofrendo, tadinho. Tive que fazer vária
operações, andei de cadeira de rodas, de muletas. Mas não tava nem
aí. Era adolescente tinha mais problemas em Ter espinhas na cara do
que em andar de muleta. Pelo menos ficava claro que eu era
diferente. Sempre quis ser diferente."
Por
isso virou punk?
"Era para
espantar o tédio. Em Brasília não tinha nada para fazer. Até hoje
não tem muito. E olha que eu trabalhava e estudava. Mas no fim de
semana não tinha o que fazer."
O
que era mais divertido em ser punk?
"Juntava sempre
uma galera, tinha a música, as festas, um monte de bandas. O Aborto
Elétrico [banda pré-Legião Urbana] é desse tempo. Tudo muito
divertido, muito inocente. É você contra o mundo; você ganha uma
identidade própria."
E
você ainda precisava disso?
"Claro, eu era
muito inseguro. Porque sempre soube que era gay. Sempre. O mundo me
dizia que eu era doente, pervertido. Queria ser completamente
diferente e, ao mesmo tempo, aceito pelas pessoas. Mas isso faz
tanto tempo. Acho que fui adolescente até os 26 anos."
Estilo Geração X [termo criado pelo escritor Douglas
Coupland], os marmanjos que não desgrudam da
mamãe?
"Ah, acho esse
povo da Geração X muito mal-resolvido. Vai se virar, vai trabalhar.
Não estou falando das pessoas pobres, que têm dificuldades. Geração
X é classe média."
É
preguiça mesmo?
"A pessoa é jovem, tem saúde, disposição, o mundo inteiro pela
frente, vai ficar em casa assistindo Vale a Pena Ver de Novo? [risos] Nem todas
são assim. Tem uns 10% que fazem as coisas. Os outros ficam por aí. O que eu
posso fazer?"
Você
exerce influência sobre elas?
"Esta lá no palco
cantando as minhas músicas. Não quero exercer influência nenhuma. Se
a Legião tem uma mensagem é "seja sua própria pessoa". E não
acreditem no que eu falo."
Isso
é meio Fernando Henrique Cardoso, não?
"Mas é verdade. A
pessoa pode até gostar e se identificar, só não pode uma coisa virar
verdade porque eu falei. Tenho uma responsabilidade, mas não sou o
salvador da pátria. Uma vez uns garotos vieram aqui no prédio falar
comigo. Não quis descer, tava de mau humor."
O
que faz você ficar mal-humorado?
"Às vezes acordo
de mau humor, por nada. E quando estou com fome ou preocupado,
pronto. Agora estou controlando. As drogas me atrapalhavam
muito."
Como
você começou a se drogar?
"Eu sou
dependente químico e não sabia. O alcoólatra não é sem-vergonha.
Existe uma enzima que o corpo do alcoólatra processa num ritmo duas
a três vezes mais lento do que o de uma pessoa normal. Então ele
acha que não é alcoólatra porque todo mundo bebe e fica bêbado, e
ele não."
Até
ficar dependente?
"Com o tempo, o
organismo começa a precisar daquilo. E começam a aparecer problemas
de relacionamento. Virei aquele chato com quem as pessoas não podiam
falar, porque não sabiam qual seria a minha reação. E vai ficando
mais pesado, cheguei a usar heroína."
Quando você percebeu que havia perdido o controle?
"Na hora que
começaram a sair reportagens dizendo que o Renato estava bêbado, o
Renato deu ataque, o Renato apanhou de seguranças no Canecão..."
No
show do Emerson, Lake & Palmer?
"É. E o mais
chato nem foram essas notícia. Foi quando começaram a mentir. Tudo
era eu. Nem estava nos lugares e diziam que eu tinha quebrado tudo.
Estava me sentido sozinho."
Como você se sente hoje?
"Não posso beber nunca, sou dependente químico. É como diabético,
que nunca pode comer açúcar. Tive uma recaída. Séria há uns dois meses.
Durou quase quatro dias e foi um inferno, mas me recuperei."
Você não se incomoda em contar tudo isso?
"Não, para mim é bom. Me dá força, não sou louco, sou alcoólatra.
É diferente. Não vou ter vergonha de ter cabelo preto, de ser canhoto. Sou uma
pessoa pública, não acho que devo mentir para as pessoas."
E porque só assumiu que era gay em 87?
"Não falava para não ter problema. Na minha adolescência, sempre me
perguntavam se eu era filho único. [risos] Tem menino que é uma flor, eu não.
Sou bem macho. Não dá nem para fingir. Acho que é por causa dos filmes de
gladiador que eu via quando era pequeno. [riso]"
Você gravou um disco solo em inglês o
Stonewall, e agora um em italiano. E em espanhol, que dá dinheiro?
"Eu não me identifico com a língua espanhola, é belíssima, mas não
me identifico. Se for para cantar em espanhol, canto em português. Acho muito
parecido. Italiano é completamente diferente."
O disco é brega de propósito?
"Ficou menos do que era para ser, mas tem coisas bem bregas. Tentei
trabalhar numa linguagem que não domino, música romântica para consumo
popular. Ela fala grandes verdades. Tem aquele dia que você está lá, de
coração partido, e toca aquela música do Gilliard. Aí você presta atenção
na letra e , putz, é exatamente o que está sentindo."
O que faz você cantar hoje, depois de doze
anos de carreira e 4 milhões de cópias vendidas?
"Uma boa melodia e uma letra interessante. Gosto muito de cantar. Às
vezes fico a tarde inteira ouvindo meus discos favoritos e cantando junto."
Dinheiro não faz cantar?
"Dinheiro me faz gravar discos, é diferente."
Deveria levar você a fazer mais shows,
não?
"Mas não gosto de fazer show, me canso muito. O esgotamento físico
até que passa, o problema todo são as responsabilidades, a gritaria. Como nós
vendemos bastante, tudo bem. E não preciso de mais nada. Se gostasse de comprar
roupa, precisaria de mais dinheiro para aquele terno Armani de 1500
dólares..."
Só para ir ao Prêmio Sharp?
É. [risos] Usar uma vez só. Com meu estilo de vida, vivo bem. Gosto de
comprar livros e CDs, viajar de vez em quando. Tenho um carro, uma Caravan 86,
que fica com meus parentes."
Você dirige?
"Não. O carro é para eles. É impossível dirigir aqui no Rio de
Janeiro. Dirigir não é só pilotar, tem que seguir as regras do trânsito. Há
pessoas na minha vida que se foram por acidente de carro."
A mãe do seu filho, Giuliano?
"Exato. Não quero falar mais nada sobre isso."
Ele continua com seus pais?
"Tá sim, não tenho como educar o Giuliano agora. De jeito nenhum.
Nossa relação é ótima, ele esta com 6 anos e é esperto. Quero que venha
ficar comigo um dia. Ele fica com meus pais, em Brasília."
E quando você morava e Brasília, com seus
pais - lá é tudo tão longe - não dava vontade de ganhar um carro?
"Não, queria uma guitarra!"